Pensamentos Livres

Esta é a minha verdade!

Software Livre e GNU/Linux

Estou escrevendo esse texto como um complemento ao texto anterior, para retificar uma falha minha. Creio que meu texto anterior tenha deixado um pouco claro que todas as minhas posições caminham numa mesma direção: a busca pela liberdade. O mesmo é verdade com relação a uma de minhas maiores paixões: os computadores. É por essa razão que sou um defensor apaixonado do software livre, e neste texto pretendo falar um pouco sobre o que significa software livre, porque em tão pouco tempo me tornei um defensor apaixonado dessa filosofia, e porque ele é tão importante. Espero que apreciem o texto.

Até o início do ano passado (2011), eu ignorava completamente o OS (Operating System [Sistema Operacional]) GNU/Linux. Ignorava por uma motivo simples, e que acabei por descobrir falso: para mim, Linux era um sistema sem muitos recursos, que te limitava a usar apenas ferramentas voltadas a esse sistema, e, principalmente, muito difícil de usar. Até que meu irmão descobriu que não precisava mais usar o Microsoft Office para fazer seus trabalhos com editor de texto (Word) ou com planilhas (Excel). Ele poderia, simplesmente, usar o OpenOffice.org, uma suíte de aplicativos de escritório (Office) totalmente livre. Ele poderia simplesmente usar o Writer do OpenOffice.org que, além de poder ler os arquivos salvos pelo Word do MS Office (“.doc”, “.xml”, “.docx”), ainda poderia salvar arquivos nesses formatos. Além do que, poderia fazer o mesmo com as planilhas: usando o Calc, poderia abrir os arquivos do Excel e o mais importante: o Calc usa as mesmas fórmulas do Excel.

Ao se ver liberto da obrigação de usar Windows para poder fazer uso do MS Office, uma vez que havia uma alternativa livre e gratuita como o OpenOffice.org, ele decidiu conhecer o GNU/Linux. E como eu tinha conhecimento de formatação e instalação de sistema operacional, ele me chamou para formatar o notebook dele e instalar o Ubuntu 10.10. Por se tratar de um sistema novo para mim, e que fazia uso de um sistema de arquivos diferente, eu precisei pesquisar a respeito para saber como proceder durante a formatação, e foi aí que o GNU/Linux começou a me fisgar.

Os sistemas de arquivos mais modernos do Linux (como ext3 e ext4) fazem uso de um recurso chamado journaling. É um recurso incrível que torna muito mais fácil a vida dos usuários. O que esse recurso faz, em resumo, é uma busca pelos setores do HD, a cada inicialização do sistema, de modo a impedir que arquivos sejam corrompidos e danificados, assim como impedir a desfragmentação do disco. E o que me chamou mais atenção é justamente a questão da não fragmentação do disco. O HD é divido em trilhas e setores, e quando dados são salvos nele estes irão ocupar alguns desses setores e trilhas. Quando um arquivo é deletado do HD, ele não é fisicamente apagado: ele continua ali. O que o HD faz, basicamente, é marcar os setores ocupados por esses arquivos indicando que tais setores podem ser sobrescritos. No caso de um OS como o Windows, que não possui um sistema de arquivos com journaling, esses setores serão sobrescritos (ou não) de modo a deixar lacunas ou fragmentar os novos dados que serão adicionados. Pensar num programa fragmentado, é como pensar que você quer ler um livro que está guardado numa cômoda com várias gavetas. Cada página do livro está numa gaveta, mas não numa ordem específica, de modo que primeira página pode estar na última gaveta, a segunda página na primeira gaveta, a terceira numa outra gaveta qualquer, e assim sucessivamente. O journaling vai impedir que isso aconteça, fazendo uma constante verificação dos setores e trilhas do HD e organizando-os, não permitindo que o dados fiquem fragmentados ao longo do disco rígido.

Ao tomar conhecimento desse recurso, fiquei maravilhado, e comecei a ver meus preconceitos com GNU/Linux serem estilhaçados. Então, em meio a minhas pesquisas, tomei conhecimento de um programa que nunca tinha ouvido falar: o VirtualBox. Esse programa é um criador de VM (Virtual Machine [Máquina Virtual]), que nada mais é do que um HD virtual que te permite instalar um OS nele sem problemas, e testá-lo à vontade. Nesse momento, comecei a sentir que um novo universo se desdobrava na minha frente, e tomava conhecimento de coisas que nunca tinha ouvido falar. Prontamente instalei o Ubuntu 10.10 numa VM do VirtualBox, e comecei a testá-lo. A medida que explorava os recursos desse novo sistema, me sentia cada vez mais instigado a experimentá-lo, e com mais e mais vontade de tirar meu Windows do HD e deixar um GNU/Linux no lugar. Foi quando aconteceu uma tragédia que me fez perder 200GB de arquivos, músicas, fotos, vídeos, e aproveitei a oportunidade para instalar o Ubuntu 10.10 no meu HD – em dual boot com o Windows (ou seja, podendo selecionar qual dos dois sistemas eu iria utilizar cada vez que ligasse o computador).

Foi quando instalei o Ubuntu 10.10 que comecei a sentir de verdade, o que significa usar o GNU/LInux: liberdade de customização, facilidade para encontrar suporte em fóruns sobre GNU/Linux, facilidade para instalar a maior parte dos softwares, e algo que me deixou bastante surpreso: alguns dos softwares que vinham utilizando ou tomando conhecimento de seu poder eram softwares livres. A ideia de que o GNU/Linux é complicado foi derrubada completamente. Este OS não é complicado, é apenas diferente do Windows. Uma vez superado o mito de que este OS é difícil de ser utilizado, descobre-se que, na verdade, é bastante simples de se utilizar – por vezes muito mais simples que o Windows.

Mas o que GNU/Linux fez de mais importante na minha vida foi a introdução de uma nova filosofia: o free software (software livre). É preciso separar bem o significado de software livre (free software, ou open source), com software gratuito (freeware). O software gratuito, é um sofware de livre distribuição, ou seja, um software que pode ser distribuído e compartilhado livre e gratuitamente. Software livre não se trata de preço: trata-se de liberdade – a liberdade de um usuário de modificar um programa para atender às suas reais necessidades, e compartilhar livremente este programa (bem como suas versões modificadas deste programa). Essa filosofia é chamada de free software, que significa, em tradução literal, software livre. Ou seja, um programa cujo código-fonte, o código escrito pelo programador que concebeu aquele programa, está aberto para quem quiser vê-lo, estudá-lo e modificá-lo. Ou, como diria Richard Stallman, significa que o usuário tem 4 liberdades essenciais:

Liberdade 0: é a liberdade de executar o programa como quiser;
Liberdade 1: é a liberdade de estudar o código-fonte do programa e alterá-lo para que o programa faça o que você quiser;
Liberdade 2: é a liberdade de fazer cópias exatas do programa e distribuí-las aos demais quando quiser;
Liberdade 3: é a liberdade de fazer e distribuir as suas versões alteradas do programa quando quiser.

Richard Stallman, criador do movimento – e do conceito – de software livre, é também o fundador da Free Software Foundation (Fundação Software Livre), uma organização sem fins lucrativos que visa financiar campanhas do movimento do software livre. Stallman criou uma licença chamada de Licença Pública Geral de GNU (GNU General Public License [GNU GPL]), basicamente a licença responsável por originar o conceito de Copyleft (um trocadilho com o termo copyright, que significa “direito de copiar”). Esse conceito, que está contido na GPL, diz basicamente que o usuário tem liberdade para de pegar o código-fonte de um programa, estudá-lo, modificá-lo e compartilhar suas cópias modificadas. Porém, essas cópias devem, obrigatoriamente, estar dentro dos mesmos termos, deve estar registrado também com a licença GPL, de modo que outros usuários terão a mesma liberdade de pegar o código-fonte da sua cópia modificada e fazer usar próprias modificações e compartilhá-las livremente, gerando assim uma corrente que não pode ser quebrada – uma vez que o autor do programa, que está sob registro de Copyleft, que está sob os termos da GPL, não tem o direito de fechar o código-fonte e impedir o acesso a eles (nem tampouco outros, que fizeram suas cópias, terão o direito de fechar esse código-fonte). É uma forma de garantir que a liberdade seja estendida a todos os usuários, sem que ninguém possa romper com esse cliclo.

Resumidamente, é isso que significa software livre e copyleft: uma constante luta pela liberdade dos usuários, e uma busca pela consolidação da solidariedade social – uma vez que estamos falando de compartilhamento de conhecimento. O software proprietário vai na contramão dessa ideia de solidariedade social: é um roubo. Roubo porque alguém acredita que pode se apropriar de um conhecimento que na verdade não é dele, veio a partir de outros conhecimentos desenvolvidos por outras pessoas. A ideia de copyright é uma tentativa de criar a falsa ilusão de direito de propriedade que na verdade ninguém tem.

Para concluir o texto, deixo uma citação de Richard Stallman, feita na introdução do documentário “InProprietário: O Mundo do Software Livre”:

“O movimento do software livre é um movimento político para a liberdade dos usuários de programas. Um programa livre pertence ao conhecimento humano. Um programa proprietário, não. É conhecimento secreto, roubado da humanidade.”

PS: Gostaria de deixar, abaixo, alguns links para quem se interessar por conhecer mais sobre o assunto, bem como o link no YouTube do documentário “InProprietário: O Mundo do Software Livre”.

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8 Respostas para “Software Livre e GNU/Linux

  1. Danilo 3 de julho de 2012 às 18:48

    Muito bom, gostei muito desse texto, até porque é muito importante explicar o que é o software livre e porque ele deve ser apoiado. Parabéns meu querido, até agora seu diarinho está muito bom.. huahaha

    Um abraço!

    • BARBOSA, Gustavo S. 6 de julho de 2012 às 15:30

      Muito obrigado pelo comentário, Dan.

      De fato, é sempre muito bom esclarecer isso, porque poucas pessoas se dão ao trabalho de conhecer essa alternativa tão interessante e que lhes permite uma liberdade que nem imaginam – justamente por estarem habituados com a falta de liberdade do software proprietário.

  2. Alberto José Moschin Júnior 6 de julho de 2012 às 01:45

    Concordo plenamente com a ideia de que os softwares deveriam ser abertos no sentido de serem costumizáveis (não todos, pois alguns são essenciais a “segurança” do pc…imagine alterar um anti-vírus…). A realidade, infelizmente, é que quem produz boa parte dos softwares faz isto como profissão, para viver… e como qualquer produto disponível no mercado, este fica vinculado a imagem da empresa e, por isto, as empresas não permitem as alterações, para que os usuários leigos (que formam a maior parte de usuários) não foquem em eventuais falhas e/ou mudanças indesejáveis nos produtos e acabem vinculando uma má imagem à empresa. De certa forma, acho isto compreensível. Para contornar isto seria necessário que as empresas fornecessem informações sobre as possibilidades de alterações e que os usuários quisessem e se interessassem por ela… e ai que vem o problema: quase ninguém quer aprender (muitas pessoas não sabem a diferença entre CPU e gabinete). Mas, pensando em um ideal, em essência, concordo com a ideia defendida.

    • BARBOSA, Gustavo S. 6 de julho de 2012 às 15:50

      Obrigado pelo comentário, Bertão.

      Que bom que concorda que os softwares deveriam ser abertos no sentido de serem customizaveis, mas a questão é mais do que a customização: é a liberdade como um todo, que envolve desde a customização do código-fonte, até a liberdade de compartilhamento de suas modificações nesse código.

      Gostaria também de fazer mais algumas ressalvas sobre o seu comentário. Quando diz que “não todos [os programas deveriam ser abertos], pois alguns são essenciais a ‘segurança’ do PC [como os anti-vírus]” eu me vejo na obrigação de discordar de você por um motivo muito simples: justamente no que diz respeito a softwares que envolvem a segurança do seu OS é que deveriam, ainda mais, ser abertos. E deveriam justamente porque são softwares envolvidos com a segurança do OS. Como confiar a segurança do seu OS a um software que você não sabe o que está rodando por trás? Como confiar num software que você não tem acesso ao código que permite seu funcionamento? E, além disso, entra a questão de você mesmo poder modificá-lo e fazer com que funcione da forma que melhor atenda às suas necessidades. Então sim, todos deveriam ser abertos, sobretudo aqueles que são responsáveis pela segurança do seu OS.

      No que diz respeito às “empresas [que] não permitem as alterações, para que os usuários leigos (que formam a maior parte de usuários) não foquem em eventuais falhas e/ou mudanças indesejáveis nos produtos e acabem vinculando uma má imagem à empresa”, eu também tenho que discordar. As empresas não estão necessariamente preocupadas em ter sua imagem vinculada a falhas ou coisa do gênero. A empresa que cria um software proprietário, além de acreditar que tem direito de propriedade sobre esse software, quer justamente que este software seja limitado de modo que você seja obrigado a comprar uma futura atualização. Não é interessante a essas empresas que você esteja completamente satisfeito com seu software, porque se assim for não haverá necessidade de atualizá-lo no futuro. Uma empresa que vende e concebe um software prioprietário o faz “com prazo de validade”: esse software já é lançado tendo em vista um nova versão para o mesmo daqui “X” anos ou meses.

      Enfim, acho que o software proprietário é problemático por uma série de fatores, mas expressarei melhor em postagens futuras as razões pela qual o considero problemático. De qualquer forma, obrigado por contribuir com a discussão a cerca do assunto.

    • André Girol 13 de julho de 2012 às 08:21

      Gu, ótimo texto!!!

      Uma pequena ressalva no que diz respeito ao VirtualBox: entendo que você quis colocar de uma forma simplista a forma que descreveu o software, mas uma interface de virtualização é muito mais que um HD virtual onde se é possível instalar um outro Sistema Operacional. Todo o hardware do PC é virtualizado: CPU, rede, discos, USB, etc… Limitar esta tecnologia somente ao HD é quase que comparar o VirtualBox e outras soluções (VMware, XenServer, etc) a um Daemon Tools evoluído. De qualquer forma eu entendi o que quis dizer. 🙂

      E Alberto, devo discordar veementemente de você. Uma das maiores soluções Open Source hoje no mercado, que inclusive contribui com partes sensíveis do kernel do Linux é o Red Hat Linux mantido pela Red Hat Enterprises. Trabalho com infraestrutura há mais de 5 anos e a maioria dos produtos que possuem certificação de performance, são justamente para essa distribuição. Outras empresas (HP, Oracle, Dell) também certificam seus drivers e outros softwares, inclusive empacotamento dos mesmos, para o Red Hat e derivados, como o Fedora e o CentOS. Fora que a Red Hat, além de ser uma das pioneiras, também é uma das maiores empresas em tecnologia hoje no mercado. Uma certificação profissional Red Hat hoje vale mais que uma certificação LPI. E ela construiu suas bases no Software Livre. Veja que o Red Hat Linux é pago, mas liberdade não tem a ver com preço e sim liberdade total com o que você compra.

      Um outro exemplo que ajudou muito a trazer o Linux para o usuário comum foi o Ubuntu Linux, que é mantido pela Canonical. O software livre em ambos os casos foi responsável pela consolidação dessas empresas no mercado e não o contrário. A própria Microsoft está percebendo isso e lançando várias soluções Open Source, como lojas online, utilitários e outros softwares para atrair estudantes e entusiastas para marca. Mas neste caso, é só uma forma de trazer mais pessoas para o Windows, que é um software proprietário.

      Sobre os antivírus,um ótimo antivírus open source que é o Clam AV e justamente por ser open source, é muito mais fácil criar mais módulos de proteção e scripts de automação utilizando seus executáveis.

      Eu ainda não uso Linux como gostaria, mas assim como o Gu, eu gosto muito da filosofia. Aliás, eu acho que ajudei você nessa mudança né? 🙂 Depois de tanto te encher o saco pra instalar o Ubuntin no PC, você acabou cedendo.

      Continue com o blog. Precisamos de textos assim na Internet.

      Abraços!

      • BARBOSA, Gustavo S. 16 de julho de 2012 às 16:24

        Girol, muito obrigado por comentar meu texto.

        Sim, de fato eu simplifiquei (e muito) o VirtualBox – da mesma forma que o journaling, dos sistemas de arquivos mais modernos do GNU/Linux -, mas, como você bem parece ter compreendido, o fiz para explicar resumida e brevemente o que o software faz. Talvez não devesse ter simplificado tanto, mas de qualquer forma, obrigado por complementar meu texto.

        E fico satisfeito que tenha gostado do meu texto, tendo em vista que você é de fato meu mentor no universo do software livre. O que acabou por me levar a usar o Linux foi ver meu irmão instalando e testando, mas quem me iniciou na parte mais importante de todo esse processo foi você, e essa parte é a filosofia do software livre. Por isso, representa muito para mim ler seu comentário aqui.

  3. Monique Amaral 8 de julho de 2012 às 17:56

    Como já te disse quando li o post pela primeira vez, seu texto é bastante sedutor rs.
    Depois de algumas de nossas conversas a respeito do assunto, de assistir ao documentário citado aqui e de ler ao seu texto, passo de alguém totalmente receosa com relação ao uso do Linux à uma futura usuária em potencial.

    Vale também dizer mais uma vez o quanto gosto da sua maneira livre de escrever, fazendo jus ao título do blog.

    • BARBOSA, Gustavo S. 8 de julho de 2012 às 18:07

      Monique, muito obrigado pelo comentário. Sabe que seu apoio é imprescindível.

      Fico satisfeito que ache meu texto sedutor, e que goste do meu jeito livre de escrever. Espero que esse efeito também seja causado em outros possíveis leitores. Porque esse é o objetivo: cativar os leitores com um texto fluído e leve.

      Mas o que me deixa ainda mais satisfeito é saber que nossas conversas e meu texto tenham colaborado para a perda do seu receio no que diz respeito ao GNU/Linux. Esse é o meu objetivo com esse texto (e com outros futuros textos que ainda pretendo escrever sobre o assunto). Espero conseguir converter novos possíveis usuários de GNU/Linux, mas principalmente, torná-los conscientes dessa alternativa chamada livre, e do poder e importância da filosofia por trás desse movimento chamado Software Livre.

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