Pensamentos Livres

Esta é a minha verdade!

Radical ou extremista: qual é a diferença?

Este texto irá abordar um tema um pouco polêmico, mas creio que seja totalmente necessário fazer aqui a distinção entre essas duas formas de se posicionar sobre aquilo que pensamos, aquilo em que acreditamos. Julgo necessário porque sou chamado com relativa frequência de radical. E de fato o sou. Mas aqueles que assim me chamam, o fazem com um sentido semelhante ao de “extremista”. Isso eu estou longe de ser. A diferença fundamental entre um e outro está no ponto em que um é uma postura racional (radicalismo), e o outro é sempre irracional (extremismo). É isso que pretendo apontar ao longo do texto e espero conseguir atingir esse objetivo.

É muito comum que algumas pessoas, num contexto de forte discordância e embate “pesado” de ideias chamem outra de “radical”. Quem nunca ouviu a acusação: “Nossa, como você é radical!”? Normalmente, essa acusação de radicalismo vem com a ideia de que ser radical é o mesmo que ser extremista. A pessoa que acusa outra de radicalismo o faz tendo em vista o sentido de “extremismo”. É normal que isso aconteça, já que a diferença entre ambos é muito sutil, por vezes quase imperceptível para aqueles que pouco exercitam sua racionalidade e ceticismo. Não é uma diferença que salta aos olhos, como preto no branco. Mas ela existe, e precisa ser apontada.

Ser radical significa que você propõe uma espécie de ruptura total com uma forma de pensamento, ou ideologia, em geral amplamente aceito, de modo a descartá-la por completo. Justamente por esse caráter forte, tal comportamento é chamado “radical”. Mas isso não significa que tal comportamento, ou concepção de ideia, seja ruim ou danosa. Eu sou radical no que diz respeito, por exemplo, ao Estado ser laico. Acredito que o Estado deve ser, sim, laico, de modo que a religião não tenha direito de intervir nem mesmo minimamente em questões políticas. Isso é ser radical, tendo em vista que não aceito que a religião desempenhe qualquer papel que influencie decisões políticas. Mas acredito nessa laicidade do Estado por um motivo muito simples: religião e crenças mitológicas em geral são um conjunto de crenças muito particulares. Uns podem compartilhar das mesmas crenças, e outros não. Como é possível tomar uma decisão política com base numa religião “X”, quando nem todos são adeptos dessa religião, desse conjunto de crenças? Não faz sentido, pois alguns serão lesados com isso, e é dever do Estado garantir que a liberdade de quem quer que seja nunca passe por cima do direito de uma única pessoa. O Estado deve assegurar o bem-estar geral, assegurando que ninguém saia lesado. Portanto, é irracional e totalmente incoerente que o Estado tome qualquer decisão com base em crenças religiosas. Alguém pode até discordar do meu argumento sobre a laicidade do Estado, mas não pode negar que é um posicionamento racional. É radical, mas é totalmente racional.

O extremista é aquele é que pretende algo semelhante a essa ruptura total com uma forma de pensamento, ou ideologia, porém de forma totalmente irracional e inflexível. Uma pessoa extremista é claro que (obviamente) se posiciona no ponto mais extremo de uma ideia, cego de todas as demais possibilidades, e totalmente fechado ao diálogo. E quando digo totalmente fechado ao diálogo, não quero dizer que essas pessoas não dialogam, não debatem suas ideias, pois muitas delas o fazem. O problema se dá na forma como o extremista se posiciona nesse “diálogo” ou debate. Na cabeça do extremista, podemos colocar assim, é como se o diálogo fosse na verdade um monólogo. Ele ouve os argumentos do outro com o interesse único e exclusivo de refutar e contra-argumentar, nunca para assimilar, entender e acrescentar a si mesmo tais ideias. O extremista não muda uma vírgula daquilo que pensa, não sai um centímetro de seu posicionamento original, não reconhece equívocos (mesmo que óbvios e claros), nunca está disposto a se transformar e modificar. O debate para o extremista é sempre puramente retórico, ou seja, é um mero embate de ideias, onde um tenta convencer o outro de seu ponto de vista, e nunca discutir uma ideia na busca de um consenso reflexivo.

O posicionamento radical, embora soe semelhante ao extremista, possui o diferencial de ser (em geral) uma posição racional, e, portanto, uma posição passível de ser modificada, desde que contra-argumentos racionais sejam apresentados para tal. Posso falar por mim mesmo. Basicamente todas as minhas posições e crenças são totalmente radicais. Mas nem por isso estou menos aberto ao diálogo, ao debate sadio, à mútua reflexão construtiva em busca de um consenso inteligente. Quem me conhece e vem me acompanhando ao longo de meus 26 anos de vida, sabe muito bem como e quanto já mudei de ideia, já me transformei e me reciclei. E continuo me transformando e me reciclando e me modificando. Porque acredito que quem não muda, fica estagnado, cristalizado, não aprende de fato. É sempre positivo estar aberto a novas ideias, o que não significa que toda e qualquer ideia nova deva ser assimilada e implementada. Mas sim que deve ser considerada, e no mínimo incorporada como um conhecimento válido; até mesmo para discordar e descartar uma ideia ou crença é preciso conhecê-la.

Espero ter consigo esclarecer bem a diferença entre se radical e ser extremista; e que aqueles que lerem este texto reflitam melhor a respeito dessa diferença, reflitam sobre cada um desses conceitos, pensem duas vezes antes de chamar alguém radical na mesma acepção de extremista. O radical está firme numa posição forte, mas pode mudar diante de argumentos e evidências concretas e racionais; o extremista não muda de opinião diante de bons argumentos e evidências concretas. Por sinal, o extremismo anda de mãos dadas com o fundamentalismo. Mas isso já são outros quinhentos…

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13 Respostas para “Radical ou extremista: qual é a diferença?

  1. Moses Andruart 9 de julho de 2012 às 14:25

    Concordo com tudo dito no texto, especialmente essa parte: “…já que a diferença entre ambos é muito sutil, por vezes quase imperceptível para aqueles que pouco exercitam sua racionalidade e ceticismo. Não é uma diferença que salta aos olhos, como preto no branco. Mas ela existe, e precisa ser apontada.”
    Já debati muito com algumas outras pessoas sobre esse assunto, e tenho que dizer que foram desventuras após desventuras, pois foi tempo perdido discutir com pessoas que nem ao menos tentam ver a situação por outros ângulos. Acho que na próxima vez, simplesmente vou mostrar a eles esse texto, assim poupo meu tempo. xD

    • BARBOSA, Gustavo S. 12 de julho de 2012 às 02:12

      Moses, obrigado por comentar meu texto. Espero vê-lo mais vezes aqui nos comentários do blog.

      É complicado mesmo debater esse assunto, porque algumas pessoas vinculam as duas coisas de tal forma que não há diálogo possível para se estabelecer a diferença. No próprio texto eu assumo o caráter sutil dessa diferença, mas ser sutil não significa que ela inexiste. Quer dizer apenas que não é bem uma diferença gritante, que salta aos olhos, que é óbvia. Mas nada que certo exercício de reflexão não possam resolver. A coisa se complica quando você propõe a reflexão e a pessoa recusa essa reflexão, assumindo uma postura dogmática e totalmente inflexível, incorrendo ela própria num extremismo.

      Fico contente que tenha gostado do texto a ponto de querer recomendá-lo em potenciais futuros debates. Ficaria lisonjeado com tal atitude, e grato que o recomende.

  2. Danilo 16 de julho de 2012 às 19:40

    Muito bom, também sou radical em minhas convicções e compreendo totalmente essa forma de pensar, agora, o extremismo já é uma posição de ignorância, que é algo que não trás benefícios a ninguém. Gostei do texto e aguardo as futuras postagens.

    Um abraço..

    • BARBOSA, Gustavo S. 16 de julho de 2012 às 19:45

      Obrigado pelo comentar novamente no meu blog, Dan!

      Logo irei escrever uma nova postagem. Já estou atrasado, por sinal – tendo em vista que vinha postando todo final de semana.

      De qualquer forma, é bem isso que você falou: o extremismo é uma posição de ignorância que não trás benefícios para ninguém. Não há nada de positivo, nem tampouco construtivo, em ser extremista. É negativo para quem convive com um extremista, e é negativo para o próprio extremista, que em sua posição inflexível se torna uma pessoa fechada para novas experiências e novas ideias.

  3. Alberto José Moschin Júnior 17 de julho de 2012 às 16:40

    Confesso que desconhecia a diferença conceitual, no entanto, acho que os conceitos sempre foram inatos na minha cabeça para diferenciar as pessoas. Posso dizer que o radical seria o humano ideal, firme em suas ideias até onde seus argumentos sejam o bastante, mas não petrificado nelas, e capaz de utilizar sua máquina do racionalismo para sua própria evolução e da sociedade. Quanto ao extremismo, se trouxermos este conceito para a vida prática, podemos dizer que a maior parte da humanidade o é: as pessoas têm por hábito defenderem inflexivelmente as posições mais absurdas gerando, por consequência, a maior parte dos conflitos existentes e violência (digo isto de modo amplo, abrangendo os mais banais de nosso cotidiano).

    • BARBOSA, Gustavo S. 17 de julho de 2012 às 17:12

      Obrigado por mais este comentário, Bertão.

      Concordo plenamente quando diz que o extremismo é o posicionamento mais amplamente adotado, e as pessoas pouco se dão conta disso. E isso deve à forma como se deixam levar por líderes de todo o tipo: líderes midiáticos, líderes religiosos, líderes políticos. Depositam uma fé cega em toda e qualquer posição que adotem, ou qualquer crença que abracem. E, querendo ou não, isso começa na educação religiosa que os pais dão a seus filhos, e o próprio fato de as pessoa ingressarem numa instituição religiosa. Porque essa vai sempre incentivar a fé, e cada vez mais fé – que é, por definição, uma crença que dispensa evidências e argumentos racionais -, de modo a incentivar cada vez mais o fanatismo. Nossa sociedade defende que essa crença, essa fé, é o maior de todos os valores, a maior das virtudes, o que é um absurdo. Criamos e incentivamos o fanatismo e o extremismo todos os dias, sem nos dar conta. Porque temos o péssimo hábito de não refletir mais profundamente sobre os valores que passamos adiante, e o que pode resultar deles.

      • Alberto José Moschin Júnior 17 de julho de 2012 às 21:03

        Lembrei agora de uma passagem do livro “Confissões” de Santo Agostinho (talvez a mais sensata e a única que se aproveita, pois o livro é um “pé no saco”) que acredito complementar a idea não só deste texto, especificamente em relação aos extremistas, mas do seu blog como um todo:

        “Por que é que a verdade gera o ódio? Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz que não é mais do que a alegria vinda da verdade? Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam seja verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão em erro. Assim, odeiam a verdade, por causa do que amam em vez da verdade. Amam-na quando os ilumina e odeiam-na quando os repreende. Não querendo ser enganados e desenjando enganar, amam-na quando ela se manifesta e odeiam-na quando os descobre.” (Livro X, Capítulo 23)

  4. Jurema Cappelletti 17 de fevereiro de 2013 às 10:32

    Nossa grande dúvida sempre será saber se somos radicais ou extremistas. Dentro de sua lógica, o simples fato de termos esse tipo de dúvida já nos mostraria como seres racionais, pois os irracionais não parariam para pensar, até por não terem uma capacidade como essa. Jurema Cappelletti

  5. Márcia 13 de agosto de 2013 às 06:33

    Parabéns pelo excelente texto! Pretendo seguir lendo outras publicações.

  6. Paty Anjos 11 de outubro de 2013 às 11:03

    Bom texto, as pessoas vivem dizendo que sou radical… e sou mesmo rsrs.

  7. Phyllipe Marks Leen 31 de maio de 2014 às 13:03

    O autor colocou no logo em cima, ” essa é a minha verdade ”
    Pois deveria esta escrito ” essa é a nossa verdade ” pois se o radicalismo é racional, todas as pessoas precisam entender isso, querendo ou não, A racionalidade está em primeiro lugar, por tanto, essa não é só sua verdade mais de todo mundo, pois você não citou a sua opinião sobre o radicalismo, você citou uma tese racional. e como é racional ela deve ser aceita por qualquer pessoa!

  8. Elyson 29 de março de 2016 às 07:29

    Do texto pude extrais que:

    Radical – muda sua opinião diante de argumentos fortes e fatos concretos. É racional. Acredita com base na evidência, seja ela fática ou argumentativa,

    Extremista – não muda de opinião ainda que diante de fatos e argumentos fortes. Não é racional. Acredita com base na crença cega, ainda que o contrário a seus pensamentos esteja claramente evidente, seja de forma fática ou argumentativa.

    grato pelo esclarecimento!!!! Excelente texto. Muito elucidativo.

  9. Leandro 16 de abril de 2016 às 10:10

    Muito interessante!

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