Pensamentos Livres

Esta é a minha verdade!

Pode o pensamento ser livre?

Este texto foi escrito para esclarecer o título do blog, mas também foi inspirada na crítica feita por um conhecido. Este, entre outras coisas, disse que não acredita em “pensamento livre”, não acredita que o pensamento possa ser livre. Já ouvi em outra ocasião um amigo dizer que o pensamento não é livre, que não há liberdade de pensamento, mas expressou mais especificamente porque não acredita na liberdade do pensamento. Eu discordo de ambos, e é basicamente essa discordância que quero expressar ao longo deste texto, e também uma apologia à crença no pensamento livre. Mas primeiro, será necessário conceituar a “liberdade”; esclarecer o que eu quero dizer cada vez que emprego essa palavrinha tão poderosa, e, justamente por isso, tão temida: liberdade. Espero que as coisas fiquem mais claras daqui em diante.

Este é meu 4ª texto no blog. A esta altura, está mais do que claro que valorizo a liberdade acima de qualquer coisa. Mas vou assumir agora uma postura de mea culpa. E faço isso por uma razão simples e clara: certo, eu valorizo a liberdade acima de qualquer coisa, mas o que eu quero dizer com liberdade? Sim, pois como um amante da linguística e toda a ciência que envolve o estudo da linguagem, sei perfeitamente que é absurdo querer cristalizar uma palavra de modo que ela possua um único sentido universal. Por mais que nos pareça ideal, até mesmo para facilitar a comunicação, que as palavras possuam um significado mais estrito, literal e pouco interpretativo (os dicionários estão aí para revelar essa “necessidade” de manter cativa uma palavra dentro de significações mais estritas), devemos assumir que isso é impossível. E tendo em vista essa impossibilidade, reconhecendo a amplitude de sentidos e significados que uma palavra pode ter, devo admitir que falhei no momento em que não esclareci, de partida, o que entendo por liberdade. Creio que todos já chegaram à conclusão pessoal de que liberdade é algo totalmente abstrato. Mas é justamente por conta dessa abstração que a tarefa de definir, de conceituar liberdade é tão complexa e ingrata. Tentarei expressar aqui o que eu quero dizer quando falo em liberdade – uma vez que não quero, de forma alguma, apresentar um conceito único e definitivo.

Liberdade não é algo que seja concreto, como o teclado em que escrevo cada palavra desse texto. Não é algo palpável, como o seu celular, ou as chaves da sua casa. Vejo a liberdade tal como vejo a felicidade. São ideias que são muito úteis, construtivas e transformadoras enquanto perspectivas. Ou seja, acreditar que se atingiu a felicidade não é algo tão útil e construtivo quanto almejar a felicidade, buscar a felicidade, buscar ser feliz. O mesmo acontece com a liberdade. A liberdade nunca é dada, nunca é concreta, nunca é plenamente vivida, porque não pode ser vivida em sua plenitude; mas pode ser vivenciada enquanto experiência e perspectiva transformadora, reformadora de si, de seus pensamentos, e até mesmo do mundo. Muitos acreditam que vivemos num mundo sem liberdade, mas em comparação com épocas passadas, com outros contextos sócio-históricos, e sociopolíticos, vivemos numa época de liberdades jamais sonhadas, sequer concebidas. Sim, a própria liberdade necessita de um certo contexto para ser realmente empregada e compreendida, o que faz dela algo paradoxal. Mas não quero me alongar demais numa reflexão que torne esse texto demasiado “filosófico”, pois isso me faria fugir daquilo que me propus ao fazer neste blog. Em suma, vejo a liberdade muito mais como uma perspectiva, do que como algo concreto. Dado o devido contexto e definição, acredito que posso prosseguir sem mais cerimônias.

Aqueles que defendem que o pensamento nunca é livre, que acreditam que não há pensamento livre, tem basicamente o seguinte raciocínio: nosso pensamento, bem como nosso comportamento (que nada mais é do que algumas manifestações de nosso pensamento), é constantemente influenciado, e até mesmo condicionado por uma série de ideias e acontecimentos externos. Ora, uma vez que nosso pensamento é influenciado por fatores externos a ele mesmo, e se constrói e se constitui a partir da relação entre o que ele é, e o que é dado fora dele, o pensamento não pode ser livre, não pode ser considerado livre, já que não está livre de influência e pressão externa. Concordo com esse raciocínio. E concordo por uma razão simples: ele se aplica àquela concepção de liberdade concreta, real, palpável. Concepção esta que eu não apenas não compartilho, como considero improdutiva – se não inválida. A partir do momento em que se concebe a liberdade como algo concreto, real, e plenamente vivenciável, a liberdade de pensamento é totalmente impraticável.

Porém este raciocínio não se aplica à forma como concebo a liberdade. Porque não falo de uma “liberdade concreta”, e sim de liberdade abstrata enquanto força transformadora e reformadora consequentes de sua concepção enquanto perspectiva. Ou seja, falo de uma liberdade que encontra seu sentido e seu poder, enquanto busca eterna, objetivo de vida, e enquanto luta contra as influências e pressões externas. Nesse contexto, já estamos falando justamente de pensamento livre. Porque é isso que vai constituir o pensamento livre: é a luta de uma mente que quer se libertar das pressões resultantes das influências externas a ela mesma. Um pensamento livre, é aquele que busca constantemente romper com tudo aquilo que tenta moldá-lo dentro de um formato, que tenta encaixá-lo, formatá-lo, e construí-lo; o pensamento livre é aquele que se destrói para se reconstruir, se reciclar, se reinventar; é aquele pensamento que nunca vai romper completamente com as influências externas (até porque são inúmeras, e nem sempre indesejadas), mas vai lutar para não ser moldado por elas sem que haja um confronto, sem que passe pelo crivo de sua própria avaliação; a mente livre é aquela vai julgar por suas próprias razões, aquilo que deve ou não ser assimilado, e não que assimila por pressão externa.

Minha resposta para a pergunta-título é: sim, o pensamento pode ser livre. Desde que a liberdade seja concebida em sua forma mais abstrata, ou seja, como uma perspectiva, como uma luta interna constante, como uma busca de um espírito inquieto e que se não se contenta em ficar “parado”, estático, e imutável. A liberdade é a luta por ser livre da cristalização, da estagnação; é a busca pela mutabilidade, transformação constante, destruição e reconstrução infinita. O pensamento livre é como o mitológico pássaro grego, fênix; é aquele entra em autocombustão, comete o suicídio, só para sentir o prazer de ressurgir, novo e revigorado, de suas próprias cinzas.

Anúncios

3 Respostas para “Pode o pensamento ser livre?

  1. Lidia Moura 17 de julho de 2012 às 18:15

    Sintetiza justamente o que eu penso em relação a liberdade. Só não consigo compreender como há a possibilidade de interpretar a liberdade, de uma forma mais direta, como algo concreto visto que a mesma possui um certo paradoxo entre o complexo e o simples acerca de sua essência.
    Gostaria de parabenizá-lo, Gu. Você escreve realmente muito bem!
    Abraços! 🙂

    • BARBOSA, Gustavo S. 17 de julho de 2012 às 18:35

      Lidia, muito obrigado por comentar.

      Algumas pessoas interpretam a liberdade como algo concreto, no sentido de viver em real liberdade, sem qualquer tipo de pressão externa, ou qualquer tipo de força de ordem não interna que te motive a agir de uma determinada forma. Tal forma de liberdade é impossível, e é improdutivo pensar nela. Dizer que nunca é possível ser realmente livre, tendo em vista essa concepção concreta de liberdade, é chover no molhado, dizer mais do mesmo, repetir obviedades.

      E obrigado pelas congratulações.

  2. Carol 19 de julho de 2012 às 15:18

    Muito bom o texto, inclusive porque essa ideia de não usar um conceito rígido se aplica a muitas outras coisas, como a felicidade, como você mesmo disse, e valoriza o processo e não o fim. Digo, se a gente não pode alcançar a liberdade plena, são os pequenos gritos de liberdade que podem ser vividos e devem ser valorizados pelo que são. 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: